Você, o vinho, a poesia e a virtude
Aqui,
nessa página desatualizada e insignificante,
perdida entre tantas outras páginas parecidas dessa Internet.
Aqui,
no meio de todas essas palavras bagunçadas,
jogadas por lá,
arranjadas de cá,
rearranjadas dali,
alocadas por mim.
Aqui, sim.
Aqui, você é meu.
Você, o vinho, a poesia e a virtude.
Tudo meu.
E, à la Baudelaire, eu me embebedo.
Não importa se ainda me quer.
(ou se um dia de fato e verdadeiramente me quis)
Não importa se tem alguém.
(ou se nunca cogitou a possibilidade de vivermos algo juntos)
Não importa se não há mais contato.
(ou se o rosto olha em outra direção quando, por alguma razão e até mesmo sem vê-lo, me aproximo)
Nada importa além do silêncio.
Em meio ao turbilhão que carrego aqui dentro, minha mudez alcança volumes aonde palavra proferida alguma jamais chegará.
Masterpiece
De repente você se percebe arte e tudo muda.
Sua voz é canção, seu sotaque melodia.
A entonação e cadência da sua verdade ditam os compassos de uma composição singular.
Você é seu opus primeiro.
Sua pele, papel raro e incomum.
Abriga marcas, letras e imagens, que contam em detalhes a sua história.
Você é sua mais valiosa edição.
Seus cabelos emolduram o retrato renascentista que compõe seu rosto. Seu sorriso contém mais mistérios que o da própria Gioconda.
Você é obra-prima de si mesma.
Expulsão
Essas palavras que deixo aqui e ali,
Essas frases perdidas em meus cadernos,
Nas escassas postagens das minhas redes sociais,
Nenhuma delas será em vão.
Jamais.
Não.
E eu sei.
Sei que elas nunca chegarão até você,
Sei que mesmo que se exibissem,
se se expusessem ao seu duro julgamento,
Não fariam diferença alguma,
Não fariam nascer qualquer fagulha de sentimento.
Mas ainda assim escrevo.
Simplesmente o faço para me livrar disso tudo,
Jogar fora o excesso do que sinto.
Escrevo para que o amor escoe,
Para que o tempo voe.
Escrevo com a esperança infantil de exorcizar você da minha mente,
Expulsar você para sempre do meu surrado coração.
Você
Incontáveis lembranças preenchem papéis rabiscados, amassados, jogados, perdem-se em vórtices de pensamentos nostálgicos.
Você.
Estilhaços de vidro cobrem parte do chão, pequenas poças adornam os lugares adjacentes. O cheiro de álcool é inconfundível. Tristeza e mágoa se camuflam no distinto odor.
Você.
Páginas e mais páginas de livros dançam pelos ares uma coreografia hipnotizante. Medo e dor permeiam todo o cômodo. É difícil respirar, impossível desviar o olhar.
Você.
Sons ininteligíveis cortam o ambiente de quando em vez, misturam-se a trechos aleatórios de músicas conhecidas. São trinta e dois anos de melodias entulhadas.
Você.
Um feixe luminoso descontínuo realça esparsas alegrias, abrilhanta raros momentos de orgulho e embeleza conquistas ainda insuficientes.
Você.
Você.
Você.
Na bagunça da minha mente, você é claramente o que há de inevitável.
Odeio você
Odeio como você me desarma e me deixa sem ação com tão pouco esforço.
Odeio como me olha de longe, fingindo que não está me olhando, fingindo que não percebeu que eu estava ali.
Odeio como seus pés parecem me seguir, fazendo com que nos encontremos tão frequentemente.
Odeio como meus olhos me desobedecem e sempre procuram os seus aonde quer que eu vá.
Odeio como eles sorriem embasbacados ao encontrá-lo e como choram calados sua falta.
Odeio lembrar que você não é meu.
Odeio ver você fugir de mim.
Odeio ter que assistir ao seu autocontrole perdurar incólume à minha presença.
Odeio não ser para você tudo o que você é para mim.
Odeio ter que aturar outros homens me querendo.
Odeio ser seu lugar-comum.
Odeio.